Desde cedo, cada sexo aprende a lidar com as finanças da maneira determinada por nossa cultura patriarcal. Mesmo quando conquistam a independência financeira, muitas mulheres ainda se sentem inseguras para administrar o que ganham e comprar o que querem. Neste artigo, a psicóloga Lana Harari esmiúça os mecanismos perversos por trás das atitudes em relação ao dinheiroCada pessoa tem seu próprio “modelo de dinheiro”, marcado por idéias, sentimentos e comportamentos muito pessoais. Ainda assim, é possível fazer uma classificação de acordo com algumas características comuns e que mais se destacam em seu comportamento: há gastadores compulsivos, poupadores, avarentos, endividados crônicos, generosos que gostam de presentear os outros, apostadores etc.
Além das diferenças de personalidade financeira, existem variáveis ligadas a gênero que afetam o relacionamento entre homens e mulheres. Conhecê-las pode ajudá-los a evitar conflitos e mesmo a resolvê-los.
Além disso, como nossa sociedade de herança patriarcal tem uma organização sexista, nela homens e mulheres são educados de modo diferente: o menino é encorajado a ser independente e competitivo e a menina cresce se sentindo mais vulnerável e responsável pelo outro. Os homens, criados com a crença de que serão naturalmente capazes de lidar com dinheiro quando adultos -- sem que ninguém lhes explique como eles farão isso! --, sentem-se mais livres para fazer o que querem, sem culpa. Então, preparados ou não para administrar sua vida financeira, eles gastam no que desejam e, quando se endividam, atribuem o problema à falta de sorte ou ao patrão que lhes paga pouco. Já as mulheres, desprovidas desse “dom natural” que os homens têm, recriminam a si mesmas e consideram que suas dificuldades se devem à sua incompetência.
Com a transformação dos valores da sociedade e do crescimento de sua atuação no mercado de trabalho, as mulheres ganharam independência financeira e passaram a acreditar que essa qualidade necessariamente viria acompanhada de ganho de poder e de liberdade para fazer o que quisessem. Entretanto, como explica a psicóloga argentina Clara Coria, independência não é sinônimo de autonomia. É por isso que elas ainda não conseguem fazer uso dos recursos obtidos graças a essa independência, de acordo com os próprios critérios. No casamento, não é raro ver mulheres que ganham bem deixar os assuntos financeiros a cargo de seus maridos. É ainda muito comum ver mulheres com dificuldade para cobrar dívidas ou pôr um preço em seus serviços. Muitas sentem-se desconfortáveis por ganhar mais que seus parceiros. Quando elas conseguem se apropriar de seu direito de fazer uso do dinheiro como bem entendem, isso não acontece sem uma luta para se impor ao outro ou uma preocupação quanto às conseqüências que a realização de seus desejos pode acarretar. Ela pode pensar: “Comprei três pares de botas, mas gastei muito e sei que vou ter que pagar por essa loucura porque o outro (meu marido, minha mãe, meu filho) vai me criticar ou porque eu mesma vou me recriminar e me sentir culpada por não ter analisado as verdadeiras prioridades da situação atual da minha família”.
Quando o homem gasta para si, comprando aquela maravilhosa moto caríssima pela qual se apaixonou, gastando tudo o que tinha e mais um pouco, não é incomum isso não causar estranhamento ou crítica. Já a mulher que cede a suas ambições é vista como irresponsável, louca ou atrevida.
Dinheiro e mulher são conflitantes: se a mulher entende que é importante se ocupar dessa questão e toma a iniciativa de falar de dinheiro com os outros, se ela quer fazer acordos com o namorado ou o marido a respeito do que vão gastar, poupar, do que é de cada um e do que é dos dois, se ela cuida de seus interesses e propõe que o apartamento que ambos compraram seja posto em seu nome também, ela é vista como materialista, interesseira e fria. A feminilidade ainda pede que a mulher seja altruísta, modesta e compreensiva. A masculinidade ainda pede que o homem seja ambicioso, agressivo e calculista. Mudar essa situação depende muito de transformações sociais, culturais e políticas, sim, mas também de mudanças pessoais, com a maior conscientização do que homens e mulheres pensam e fazem a respeito de dinheiro.
Fonte: Lana Harari - psicoterapeuta (http://claudia.abril.com.br/materias/2974/?sh=28∓cnl=24)
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